27 outubro 2005

Escrever é viver

Uma vez mais estou em frente ao teclado. Meses se passaram já desde a última vez.
Olho o ecrã. As minhas mãos hesitam. Que escrever?
Durante um longo e penoso momento, as minhas mãos ficam paradas, imóveis. Não sei que escrever, e a minha alma gela no medo de tudo ter acabado, esta magia de ver as minhas palavras, as minhas ideias, os meus sentimentos, o meu eu, enfim!, sair de dentro de mim, espalhar-se pela vastidão do papel, do ecrã em branco... Será que é o fim?...
E depois as minhas mãos reagem e, automaticamente, deslizam sobre o teclado, expressam ideias, põem a nu a minha alma... E pela minha face desliza, célere, uma lágrima... Escrever é, para mim, VIVER!

Nota de autor...

Não sei se, ao fim de tanto tempo, ainda há alguém que aqui venha ou que sinta a minha falta... De qualquer forma informo que, após um LONGO período de silêncio (desculpem lá, mas o verão e as férias nunca me inspiram...), os posts vão reaparecer ao mesmo ritmo regularmente irregular... Por isso, se têm o gosto (discutível...) de ler o que escrevo, podem voltar a passar por cá! Até lá... saudações literárias!

07 julho 2005

Finalmente... (Parte I)

De pé nesta falésia, contemplo a imensidão do céu e do oceano.
E pergunto-me porquê.
Pergunto-me se ainda tenho razões, um motivo que seja para estar aqui.
Não estou toldada pelo desespero, não. Não estou de cabeça quente, não estou desesperada como no dia em que te perdi, em que te perdi definitivamente e para sempre.
Não. Estou calma, mesmo muito calma. Esse desespero, essas lágrimas quentes de raiva e frustração, cristalizaram nesta calma, nesta quase indiferença gélida e determinada. Perder-te, foi perder tudo...
Antes de te conhecer eu não tinha nada, não tinha ninguém. Mas isso não me incomodava, porque eu não sabia o que era ter alguém. Não sabia o que era ser-se amada, apoiada e acarinhada. Não sabia o que era gostar de alguém, gostar mais do que gostamos de nós próprios. Não sabia o que era ter alguém do meu lado, sempre. A apoiar-me, a proteger-me. Querendo ficar comigo, ajudar-me com os meus problemas, enfrentar tudo comigo e por mim. Só sabia o que era estar sozinha.
E depois tu apareceste.
E mudaste tudo.
Não foi fácil conquistar-me, eu sei. Eu tinha medo, medo daquele sentimento tão forte que estava a nascer em mim, medo de tudo o que estava a irromper na minha alma, no meu coração, sem avisar nem pedir licença. Não sabia o que era aquilo, não sabia o que era amor. E como não sabia, como nunca tinha provado o travo doce e amargo desse sentimento, não lhe sentia a falta. Sentia-me bem assim, sem saber que as coisas podiam ser diferentes, que tudo podia ser de outra maneira. Sobrevivia, sem saber como é bom viver.
Até que cedi.
Até que me rendi àquela força imensa que invadira o meu coração e que me dominava, que me arrastava, que me prendia a ti.
Até que soube como era bom estar contigo, como era bom ouvir a tua voz, sentir o teu calor, ter o teu carinho.
E aí tudo mudou...
Deixei-me arrastar pela vertigem dos sentimentos, das emoções, das sensações. Descobri o amor, o carinho, a paixão. O ciúme, o medo, a possessividade. E, mais do que tudo isso, descobri a segurança. Descobri o que era sentir-me segura, segura do teu amor, segura do teu carinho. Segura para além de todos os ciúmes e medos. Segura.
Segura enquanto me abraçavas, carinhoso e terno.
Segura enquanto me beijavas e dizias que me amavas.
Segura enquanto me arrancavas aos meus medos e pesadelos, ao inferno em que vivo.
Segura.
E é por isso que hoje olho este imenso céu azul e pergunto porquê.
Porquê?
Porquê, por que é foi assim?

20 junho 2005

"Pena que Sangra"

Como não podia deixar de ser, venho aqui anunciar a publicação do livro "Pena que Sangra", uma colectanea de poemas do meu colega de blogosfera Prometeu. Quem quiser dar uma espreitadela, dê um salto ao Esparsos, com link aqui mesmo ao lado... E quando o livro estiver disponível na Fnac (as reservas com o autor já acabaram), direi qualquer coisa...
Uma vez mais, PARABÉNS PROMETEU!!!

12 junho 2005

"Angel in the Dark", Nemesea

Hoje, vou variar...
Esta música diz-me muito, fala-me à alma. Não só porque a ouvi nos braços do meu amor, que é o melhor sítio para se ouvir música, mas também porque reflecte de uma forma assustadora a minha alma... Tanto que não consigo evitar chorar ao ouvi-la... Bem, fica aqui a letra. Se gostarem já sabem, procurem!!

"A dream so real it takes her back
She's falling into her own past
The present has gone forever
Now she rests upon her bed
and then she cries...
and then she feels...
she feels so sad

Lost in memories
she tries to fade away but fails
The darkness overrules the sky
She keeps on screaming: "Tell me why!"

When will the light take over
these dark days
And will she ever wake
and know it is all a lie?

Her eyes are closing slowly
The pain increases everyday
She wanted to fight but walked away
and now there's nothing left to say

She used to live, she used to give
She always enjoyed life the way it was meant
But clouds they came and played their game
Casting a spell so she'd fade away
But will she stand up to fight and protect her life
Be what she wanted to be... an Angel in the dark

Her dreams are taking over
The puzzle remains a mystery
But she ought to know by now
it's just imaginary"

"Angel in the Dark", Nemesea

09 junho 2005

Lágrimas...

Olho os teus olhos, os olhos que eu tanto amo. Uma lágrima, não, muitas lágrimas, caem deles, deslizam sobre a tua pele macia e suave que eu tanto gosto de acariciar.
O meu coração aperta-se...
As minhas mãos deslizam pelas tuas faces, apagam as lágrimas que eu bebo num longo beijo...
Sei porque choras. Sei e não gosto, porque é por mim, por nós que estás a chorar. E eu odeio isso, odeio discutir contigo, odeio-me por cada uma das lágrimas que, como pérolas, correm redondas e firmes. Odeio-me por cada segundo de sofrimento que te faço sentir, por cada mágoa que se vem juntar a todas aquelas que carregas nos teus ombros tão fortes e tão fragéis...
Tu choras. E eu desespero. Estendo os meus braços para ti, puxo-te para junto do abrigo do meu corpo que te envolve como uma redoma, abraço-te com força, muita muita força enquanto sinto as tuas lágrimas a perpassarem-me a roupa, a molharem-me a pele...
Não chores, amor, por favor!, imploro-te vezes sem conta. Mas desta vez não te consegues conter, sentes-te culpado, demasiado culpado por algo que, na realidade, não é culpa de nenhum de nós... E as tuas lágrimas continuam a correr, doem na minha pele como ácido que me fere e corrói...
Dói tanto, tanto! Dói demais...
E então, também eu choro...
Estou contigo, amor. Não estás sozinho, nunca mais estarás. Não chores. Não sofras. Nós amamo-nos, e nada mais importa...

06 junho 2005

Adeus

Para quem me conhece e pode ter notado bastante realidade nos meus últimos posts, quero apenas informar que este é pura e simples ficção...

Escuro à minha volta... Noite... Medo... Solidão...
Afasto-me de todos, inclusive de quem me ama...
Porquê?
Porque tenho medo... Pura e simplesmente tenho medo...
Começa a chover. Chove com força, uma chuva quase torrencial que reflecte tão bem aquilo que sinto!
Tenho medo... Medo de ficar só uma vez mais, medo de perder aquela pessoa que iluminou o meu mundo...
E, não o confesso a ninguém, mas... ciúme, tenho ciúme. Ciúme de quem está tão perto dele, tão mais perto do que eu estou, ciúme de quem recebe em si o fogo do seu olhar cobiçoso, cheio de desejo... Ciúme de quem recebe no seu o corpo dele, o corpo doce, suave e forte que faz magia acontecer...
E hoje, hoje ele devia estar aqui... Porque não estará? Terá mesmo ficado a trabalhar? Ou será que foi ter com aquela sua nova paixão, aquela que os seus olhos seguem, mesmo quando eu estou presente?
Ele não ficaria contente, se me ouvisse a chamar-lhe paixão... Chama-lhes caprichos, arrebatamentos, nunca paixões. Mas chame-lhes ele o que quiser, o meu medo é o mesmo...

Chega. Hoje decidi que já chega!!
Adeus. Chegou a hora de lhe dizer adeus. Esta está a atrai-lo bem mais do que é costume, eu sinto. E eu sempre lhe disse que não aceito partilhar-lhe o coração!
Chega.
Adeus.
Não me mereces.
Durante três anos foste de outras vezes demais, quiseste outras vezes demais. E se eu sempre aceitei, sabendo que por muito que o teu corpo passeasse era a mim que a tua alma voltava sempre, como pássaro voltando ao ninho, agora não aceito mais.
Chega.
Cansei-me. Cansei-me de sofrer, cansei-me de te partilhar.
Chega.
Adeus.


27 maio 2005

Um ano...

Uma noite de fim de Maio, já quente. Uma quinta-feira à noite.
Estou estendida no sofá com um livro nas mãos. Um livro interessante (para mim), político. Um livro que eu não consigo ler.
Abro-o, leio as primeiras palavras. Ergo os olhos, talvez pensando no que li? Não. Penso nele, naquele que nos últimos tempos não me sai da cabeça. Uma figura sombria. Uma mente brilhante. Uma alma complexa, cheia de luz e de sombras. Um sorriso insinuante. Um olhar sedutor. Um olhar perturbante. Um olhar que parece ler a própria alma, que parece entrar dentro de mim. Uma alma gémea?
Suspiro, volto a baixar os olhos para o livro. E uma vez mais não resulta, as palavras deslizam à minha frente sem que os olhos as decifrem. Fecho o livro com força, hoje não o consigo ler. Até porque foi por causa dele que mo emprestaram, para comparar as nossas reacções... Mas será que tudo me faz pensar nele?!
Cruzo os braços sobre o livro fechado, deito a cabeça sobre eles. Penso. Sinto. Recordo. Procuro entender. Procuro entender tudo o que penso, sinto e recordo. Procuro ler nas atitudes dele, nas palavras dele, algo... um sinal que me permita perceber se ele sente o que eu sinto, que me permita ver se há algo mais ou se é simples amizade. Simples... enfim, tão simples quanto o pode ser uma amizade entre dois malucos como nós!
Mas... será que é só isso? Será que é só amizade? Recordo a manhã de hoje, o beijo súbito, o seu olhar enquanto se afastava, o sorriso provocador como se esperasse a minha reacção. Recordo as palavras dele mais tarde, interessadas mas lançadas ao ar, como se uma vez mais procurasse uma reacção. E o olhar dele, estudando-me enquanto eu me fazia de desentendida, sentindo o coração acelerado, cada vez mais acelerado...
Mordo os lábios, tento controlar-me. E sento-me de repente, indiferente aos olhares surpresos que se fixam em mim. E cerro as mãos com força, com muita força, tentando conter dentro de mim o que sinto, esta angústia de não saber que me mói por dentro!
De repente, o telemóvel. Mensagem. E quando vejo que é dele o meu coração dispara. E quando leio as primeiras palavras, adivinho o que vem a seguir e vou direita ao meu quarto, à minha cama, ao meu refúgio. E deito-me nela, a respiração acelerada enquanto leio, uma e outra vez, que ele gosta de mim, que ele me ama, que ele quer namorar comigo!! E quero rir, e chorar, e fazer todas aquelas coisas idiotas que se fazem quando se está apaixonada. E depois o telemóvel volta a tocar, e é ele...
Um ano passou depois desta noite. Um ano, já... Passou a correr, passam a correr todos os momentos em que estamos juntos. E hoje, escrevo este texto para dizer uma única coisa, para o gritar para todo o Mundo ouvir: AMO-TE, DANIEL!!!

21 maio 2005

PARABÉNS!!!

Já devia ter dito isto aqui, mas mais vale tarde do que nunca...

Quero dar os parabéns ao Prometeu (quem não conhce pode visitá-lo e conhecer a sua excelente escrita no Esparsos ou no De Pena em Riste) que vai publicar brevemente o seu primeiro livro!!! Espero que todos vocês olhem para ele quando o virem nas livrarias... Oportunamente darei mais informações!

Os meus parabéns para o talentoso escritor.

16 maio 2005

Um dia...

Um dia sonhei que podia sonhar.
Um dia sonhei que podia amar.
Um dia sonhei que tudo seria perfeito, que não haveria erros nem lágrimas.
Um dia sonhei que tudo seria como nas histórias que tantas vezes imaginei, em que o amor superava tudo.
Um dia acordei desse sonho...
Um dia descobri que não há principes encantados.
Um dia descobri que o amor não é tudo.
Um dia descobri que nada há que possa impedir lágrimas de correr.
Um dia descobri que nasci para sofrer...
Um dia julguei-me parva.
Um dia tive esperança.
E hoje, é só mais um dia...

13 maio 2005

Mulher-mãe

Fecho a porta com cuidado, para não acordar o menino. E agora a minha expressão retoma o ar cansado, desiludido, que tantas vezes já tomou nos últimos tempos. Porque o nosso filho já tem um ano e a tua atitude continua igual. Ao início mal notei, depois pensei que havias de mudar com o tempo... Sabia que nunca tinhas querido filhos, mas tinhas insistido tanto... Pensei que tinhas mudado, pensei que também em ti nascera a vontade de ter um filho, uma criança nossa, um fruto do nosso amor, alguém teu e meu, alguém que mostrasse na verdade como nós dois éramos um só...
Enganei-me.
Se algum dia quiseste esta criança, foi por mim, só para me agradar, para realizar aquilo que sabes ser um sonho antigo. Tu nunca o quiseste, nunca.
E eu descubro isso agora de forma cruel...
Entro, passo ante passo, no escritório em que, como sempre, estás sentado ao computador, a escrever, sempre a escrever. Compreendo isso, também eu o adoro fazer. E adoro ler o que tu escreves. Sempre adorei, continuo a adorar.
Aproximo-me devagar, dividida entre o amor que é uma força tremenda a ligar-me a ti e o desgosto, a desilusão, a quase raiva de te sentir indiferente ao nosso filho.
Tu pressentes-me, como tantas outras vezes, e viras-te sorrindo, o teu sorriso tão doce e terno. Levantas-te, abraças-me, acaricias suavemente os meus cabelos enquanto eu me encosto a ti, ansiando pela sensação de abstracção e felicidade que vem sempre quando estou nos teus braços...
Não desta vez.
E percebo isso quando me tentas beijar e me sinto indiferente, indiferente ao calor da tua boca, à doçura que escorre dos teus lábios acariciantes. E quando o percebo não tenho forças para fingir... Sentindo a minha frieza, interrompes o beijo, olhas-me com aquele teu olhar penetrante. E de repente eu solto-me dos teus braços e corro para junto do nosso filho... Não, do meu filho. Tu nunca brincaste com ele, nunca lhe fizeste uma carícia, nunca lhe deste um dos teus sorrisos ardentes de amor. Tu não o amas. Não o queres para ti. E se tu não o queres para ti, então... então eu também não te quero para mim... Não posso querer...
Noite alta.
Dormes, um sorriso nos teus lábios depois destes momentos de amor. Os últimos... A minha despedida. A despedida que tentará matar o sabor a cinzas que tenho na boca e que, bem o sei, não fará nada além de o aumentar...
Pego no nosso filho, no seu corpo doce que se abandona nos meus braços. Olho uma vez mais o seu sorriso, tão igual ao teu, tão igual como os seus olhos que sei castanhos e ternos como os teus. Sufoco um soluço, engulo as lágrimas. É por ele que faço isto...
Saio sem bater com a porta. Sobre a cama, na almofada ao teu lado, na almofada para sempre vazia de mim, fica um bilhete, um curto bilhete.
Acordo e procuro pelo corpo dela... Não está lá.
Abro os olhos, senti um papel... Leio:
"Tu não queres o nosso filho. E eu, que sei como tu o que dói crescer sem amor, num turbilhão em que nos sentimos abandonados, não vou deixar que o meu filho sinta isso. Adeus. Amar-te-ei para sempre..."
Olho para o papel, não percebo nada...

07 maio 2005

Louco

"Levantei-me do sofá, fui até à janela. Amanhece. Amanhece depois desta noite de solidão... Nem sei há quantos dias não apareces, há quantos dias foges aos meus telefonemas, às mensagens que te deixo no gravador, aos sms que te mando para o telemóvel... Nem na net te consigo encontrar, nem no msn. Embora online, estás sempre ausente. Há meses que é assim... Pelo menos para mim... Mas talvez não para ela?...
O que é que se passa? Porque é que não és franco comigo, porque é que não me dizes simplesmente que acabou? Tens medo? Da minha reacção, do meu sofrimento, de que eu faça alguma parvoíce? Caramba, sempre te pedi sinceridade! Fala comigo, diz de uma vez que deixaste de gostar de mim, diz de uma vez que agora é ela a dona do teu coração, esse coração que eu tanto quis mas que nunca me pertenceu! Diz, fala! Não te cales, não fujas, não tenhas pena de mim! Pensaste alguma vez que eu me ia contentar com isso depois de tudo o que tive? Pena não chega, quando se sabe o que é paixão, paixão louca, paixão que incendeia os corpos. E foi isso que nós tivemos! Apenas e só isso...
Como eu queria que tivesse sido diferente! Como eu quis, como eu tentei seduzir-te, prender-te à minha alma e não apenas ao meu corpo, este corpo em que ninguém ainda reparara, este corpo que foi teu e que agora pareces disposto a abandonar...
O que é que ela tem a mais que eu? O que é que ela é mais do que eu? Faz tudo por ti? Ama-te? Também eu! Também eu te amei e fiz tudo por ti, deixei tudo, esqueci que tinha vida! E agora, anos depois, quando já só vivo por ti e para ti, deitas-me fora como um brinquedo de que já não gostas, deitas-me fora sem uma única palavra sequer...
Errei, eu? Em quê? Se sempre fiz tudo por ti, o que tens para me apontar? Só se for isso mesmo, este meu amor infinito, este amor que eu sempre procurei conter mas que acabava por surgir em explosões de ciúme... Este amor que nunca retribuiste, este amor que nunca foi nosso, mas só e apenas meu... Este amor que nunca o foi, pois amor só é amor quando vem dos dois lados...
Não tens coragem sequer para me olhar, não é? Vou facilitar-te o trabalho: aqui fica esta carta, este mísero papel sobre a mesa, estas letras que nunca lerás. Adeus. Vou para a missão que me propuseram e que quase rejeitei por ti. E lá, ajudando crianças famélicas, esquecer-te-ei. Esquecerei este simulacro de amor que me fez abandonar o resto do mundo e que em troca me deu apenas abandono e sofrimento. Adeus."
Ele leu a carta e deixou-se cair no sofá, as mãos apertando a cabeça, tentando controlar um daqueles súbitos e terríveis acessos de mal-estar que lhe aconteciam há semanas... Descobrira hoje porquê. Um cancro que lhe corroía as entranhas. E quando, desesperado, correra para junto dela, descobrira que ela se cansara, que partira. E, sobretudo, que partira julgando que ele não a amava... Tudo mal, ela entendera tudo mal... Amaldiçoada sede de independência que o fizera afastar-se, enfeitiçado pelo olhar felino da outra... e que o fazia agora perder quem realmente amava...
E agora? A que se agarrar, para quê lutar? Onde arranjaria forças para lutar contra a doença que, o médico fora claro, estava já em estado avançado?
Deixando-se escorregar para o chão, ele chorou. E amaldiçoou uma vez mais a sedução da outra, a sua própria inconsciência, a sua ânsia de liberdade... Não, a sua sede de sexo. Reconhecia, tinha de reconhecer pelo menos a si próprio, que o atraíra na outra fora aquele corpo envolvente e capitoso, estonteante, ardente. E por isso perdera o seu amor...
Louco, que louco que fora...

30 abril 2005

A pensar em ti...

Estou aqui, sentada em frente ao monitor. Sozinha nesta casa vazia. A pensar em ti.
Há minutos, lia os teus textos. Procurava neles a tua presença, inebriava-me com a música das tuas palavras. E, lentamente, lágrimas corriam-me pelas faces, aquelas lágrimas que tu já proibiste mas que eu não consigo conter nem dominar, as lágrimas que me enevoam a visão e que, deslizando, formam manchas nas minhas calças, manchas que eu olho quase espantada.
Lágrimas absurdas, talvez... Lágrimas pela tua ausência, lágrimas de saudade por quem vi ontem, por quem verei daqui a uns dias. Mas isso é tempo demais, só te tenho a ti, dói demais cada segundo que passamos separados, cada segundo em que não posso olhar-te, inebriar-me com o teu olhar onde leio amor, com as palavras que me sussurras em voz doce como só tu tens, com a força e a segurança dos teus braços à minha volta, a prenderem-me como se fosse o bem mais precioso do mundo...
É, dói. Dói muito, dói demais. E eu não consigo controlar este sofrimento. Eu, que sempre mandei naquilo que sinto, não o consigo agora fazer. Porque quando entraste na minha vida mudaste tudo, e eu por ti e para ti aboli muralhas, distâncias ou protecções. Eu sou tu e tu és eu, e isso é maravilhoso... e também doloroso, muito doloroso.
Amo-te. E enquanto repito isto para mim própria, mais uma lágrima corre, e se junta às outras que caem pelas minhas faces. E eu mordo os lábios, reconhecendo o arrepio que me percorre, o mesmo de sempre, o mesmo de cada vez que choro enquanto escrevo, o mesmo de cada vez que as palavras saem humedecidas de mim por virem de tão fundo no meu coração, por virem de um sentimento que é maior que tudo e todos, por virem do sofrimento, do sofrimento em que pareço estar a tornar-me perita...
Quando me leres vais-te preocupar, bem sei. Vais ficar triste por me saberes uma vez mais a sofrer, vais sofrer comigo embora longe, tão longe de mim. E eu sei isso, mas não consigo impedir-me de escrever... Porque preciso, porque preciso de tentar exorcisar esta dor maior que o universo, e a escrita é o meu refúgio de sempre, o refúgio de quando ainda não tinha os teus braços para me acolherem, os teus lábios para me beberem as lágrimas, o refúgio de quando esses braços e esses lábios estão longe, oh!, tão longe. Se não geograficamente, pelo menos emocionalmente. Porque quando se ama e se sofre uma ausência, até dois metros é uma distância insuportável...
Não posso continuar. As lágrimas não param, hoje nem isto resulta. Tenho de as deixar correr. É isso que vou fazer.
Sempre, sempre a pensar em ti...

29 abril 2005

Um passo. E depois outro.

Um passo.
E depois outro.

Um aperto no coração, a garganta apertada.
O coração parece que fica ali.

Um passo.
E depois outro.

Tenho de me vencer.
Não vou olhar para trás.

Um passo.
E depois outro.

Tem de ser assim, tem de ser.
Não será por muito tempo...

Um passo.
E depois outro.

E quando já dei os passos suficientes, caio de joelhos e deixo-me chorar...

24 abril 2005

Abril - a Revolução

Um post um pouco diferente, mas não consigo deixar passar em branco o aniversário da nossa Revolução... Peço desculpa pelo estilo um pouco... sei lá... a mim já me parece estranho, mas foi escrito há quatro anos atrás, e nessa altura eu pensava (e escrevia) de forma (muito) diferente...

Abril – a Revolução
Começou de madrugada
(uma para sempre lembrada)
Ao som de uma canção...

Enquanto o poeta cantava,
O Exército acordava
Para concretizar a ilusão
De toda uma nação...

Das armas choveram
Cravos e não balas:
Os poucos que morreram
O Fascismo os matava.

O poder “caiu na rua”
Mas ao Povo foi tirado.
A luta continua! –
É preciso ser lembrado...

Mas a Revolução triunfou!
E veio o Verão Quente!
Portugal acordou,
Tentando plantar a semente.

Semente de democracia,
De fraternidade, de igualdade.
Semente de Liberdade
Que despontava com alegria.

Semente que pouco floresceu...
Desde logo foi sufocada
Pelo veneno que verteu
A contra-revolução exaltada.

Assim acabou em Novembro
O Verão que a Pátria aquecia.
(O verão acaba em setembro,
mas na alma o calor se sentia)

Foi grande a desilusão
De todo o nosso país:
Arrancaram do coração
Semente, caule e raiz.

Continuo desiludida
Com os Capitães de Abril:
Revolução? Destruída!
Povo? Voltou ao redil...

Abril – a Revolução: o dia
Em que Portugal renascia.
Mas... De que serve renascer
Se não se continua a viver?...

Às vezes...

Homenagem a um dia muito especial, que ocorreu fez ontem um ano...

Às vezes tentamos fugir a alguém.
Às vezes tentamos evitá-lo.
Às vezes não conseguimos...

Às vezes o Destino prega partidas.
Às vezes apaixonamo-nos por essa pessoa.
Às vezes ele revela-se a nossa alma gémea.
Às vezes só nos braços dele conhecemos a felicidade.
Às vezes, ele revela-se aquele, o tal.
Às vezes tudo isto acontece.

Às vezes...

16 abril 2005

Lágrimas correm...

À minha irmã, em memória de tudo o que passámos juntos, em memória de todos os momentos e lágrimas partilhadas...

As lágrimas correm,
E eu não sei porquê.
E daí...
Talvez até saiba,
A mágoa é tanta!

Mágoa de perder,
Mágoa de não recuperar,
Mágoa de sofrer,
Mágoa de chorar.

As lágrimas correm,
E eu fico a pensar.
Será que tenho culpa?
Será que podia evitar?

Evitar sofrimento,
Evitar separações,
Evitar conhecimento,
Evitar quebrar corações.

As lágrimas correm,
E eu nem as tento enxugar.
Talvez as mereça,
Talvez mereça chorar.

Merecer sofrer,
Merecer chorar,
Merecer perder,
Merecer não reencontrar
.

As lágrimas correm,
E eu não as consigo parar.
Odeio esta vida,
Só serve para chorar!

Chorar lágrimas,
Chorar sentimentos,
Chorar mágoas,
Chorar sofrimentos.

As lágrimas correm,
E eu limpo os olhos.
Abafo o sentimento,
Acabou o momento.

Momento de sofrer,
Momento de lamentar,
Momento de rever,
Momento de chorar.

As lágrimas correm,

E eu tenho de continuar...

13 abril 2005

Prelúdio

Ela era bonita: não muito alta mas com o corpo bem desenhado, pele muito branca, olhos verdes, muito rasgados e profundos, um manto de cabelo negro, liso e brilhante.
Ela era elegante: vestia de branco, um longo vestido de seda que lhe desenhava e envolvia o corpo.
Ela era pura: nos seus olhos não brilhavam erros nem paixões, apenas o desejo de ser feliz.
Ela era frágil: todos a tinham traído e abandonado, aqueles em quem mais confiara, aqueles que deveriam ter sido os seus protectores.
Ela tinha medo: lágrimas corriam dos seus belos olhos, perolando-lhe as faces, a sua pele macia e suave.

Ele apareceu.

Ele era belo e terrível: adivinhava-se nele poder.
Ele fascinava: vestia de negro, negro absoluto nas calças, na camisa, na capa que o envolvia, negro absoluto que contrastava com a claridade das suas feições, a pele pálida, os cabelos de um louro muito claro, os olhos de um azul muito frio.

Ele estendeu-lhe a mão.
Ela agarrou-a.
E, de repente, deixou de ter medo.

11 abril 2005

À espera... (parte II)

Pedindo desculpa pela demora, aqui deixo o fim deste conto...

A nossa relação era assim, estranha. Por um lado, éramos mais do que amigos, por outro, nem sei se amigos éramos... Podíamos ver-nos todos os dias ou passar semanas sem nos encontrarmos. Às vezes quase me ignoravas, e a tua conversa era fútil, leve, apenas para encher o tempo. Outras vezes estavas alegre, íamos dar uma volta, íamos a um bar, a um concerto ou ao cinema, divertíamo-nos. Mas a maior parte das vezes estavas triste e sombrio, falavas pouco mas gostavas de estar ali, gostavas que eu estivesse por perto. Eu sentia, nem sei bem como, que tu gostavas. Sentia que te acalmava, que te fazia bem saber que alguém se preocupava contigo, que alguém queria estar ali e apoiar-te. Mesmo sem dizeres nada. Mesmo ficando calado, sem confessar nunca o que te preocupava. E sabendo isso, sentindo isso, eu ficava ali contigo horas perdidas, até que te levantavas e ias embora, ou até que anoitecia e esfriava e íamos ambos embora.
O que será que te preocupava? O que é que era tão grave que te acabrunhava, que não conseguias vencer, mas ao mesmo tempo leve para te deixar resistir sozinho, sem apoios nem ajudas, na fortaleza da tua solidão e do teu distanciamento? Não sei, não consegui nunca saber. Por mais que te dissesse, directa ou indirectamente, que estava ali para te ajudar, tu deixavas bem claro que isso não eram assuntos meus. Às vezes, para suavizar a dureza das palavras, sorrias. E então, embora o teu sorriso fosse triste, o mundo parecia transformar-se...

Quanto tempo ficámos assim? Foram meses, muitos meses durante os quais brincámos ao gato e ao rato, escondendo e mostrando, revelando e ocultando, andando em volta dos nossos sentimentos como crianças jogando à apanhada ou às escondidas.
Foram meses. Meses em que se gastaram a Primavera e o Verão, o Outono e parte do Inverno. Sim, porque foi no Inverno, num dia frio e nublado em que o mar (o nosso mar!) estava de um tom cinzento gélido, que tudo se precipitou.
Tu ligaste-me logo de manhã. Querias falar comigo. E eu mandei o resto às urtigas e fui ter contigo. No sítio do costume. Nesta mesma esplanada debruçada sobre o mar. Ficámos aqui horas, com sumos e sandes pousadas sobre a mesa. Os teus olhos perdiam-se no mar, cinzentos e gélidos como ele. Os teus braços cruzavam-se fortemente sobre o peito. O teu corpo parecia prestes a explodir de tensão. Parecias ainda mais concentrado, mais preocupado, mais distante do que nunca, mas ao mesmo tempo tão próximo...
À tarde fomos para a praia, vagueando pela areia. Acabámos por nos sentar num rochedo, sempre em silêncio. Quando uma brisa repentina e gélida se levantou e me fez estremecer, tu pareceste acordar. Olhaste-me, passaste-me o braço pelos ombros, apertando-me a ti, tentando aquecer-me. E continuámos em silêncio, mas agora dolorosamente conscientes da nossa proximidade, dos nossos corpos tocando-se e partilhando o seu calor.
De repente olhaste para mim e ficámos as duas assim, só assim, muito tempo. E então algo explodiu dentro de mim e eu não consegui resistir.
E eu, que tinha conseguido reprimir e fechar tudo dentro de mim durante tanto tempo, durante a suave promessa da Primavera, durante a confirmação esfuziante do Verão, durante a doce melancolia do Outono, durante o sombrio peso do Inverno, não consegui mais aguentar.
Ergui a mão até à tua cara, afaguei suavemente a tua pele, os teus cabelos negros e sombrios. Passei-a lentamente pelo teu pescoço, puxei-te até mim. E sob a luz dos teus olhos claros, surpreendidos e ansiosos, com profundezas e mistérios que eu queria desvendar, beijei-te.
Foi um beijo como eu nunca antes tinha sentido, meigo e apaixonado, com um carinho e uma ternura impressionantes, com uma entrega e confiança totais, profundas como eu nunca tinha experimentado.
E depois acabou.
Olhaste para mim.
Suavemente, libertaste-te dos meus braços.
Levantaste-te, passando a mão pelos cabelos.
Afastaste-te.
Desapareceste.
Nunca mais te vi.
Nunca mais soube nada de ti.

E é por isso que, nesta nova Primavera, estou de novo aqui.
Sentada nesta esplanada debruçada sobre o mar.
Com um caderno à frente, escrevendo.
À espera.
À espera que de novo passe por mim o vulto misterioso e sedutor, altivo e orgulhoso, que me conquistou o coração.
À espera.
E vou continuar aqui.
À espera.
Até que tu voltes.

05 abril 2005

Tu

Mais um recado, Prometeu: lembras-te deste texto? Há meses atrás (parece que já foi há anos...) perguntaste-me se já tinha encontrado alguém assim... Já sabes qual é a resposta?

Teus braços:
Um refúgio
Quando me canso de sofrer.
Teu sorriso:
Um sonho
Que me ajuda a esquecer.
Teu olhar:
Uma estrela
Que me está a iluminar.
Tua voz:
Uma canção
Que me ajuda a acalmar.
Teu corpo:
Um abrigo
Nas noites escuras de solidão.
Tuas mãos:
Uma carícia
Que me entra no coração.
Teus lábios:
Um beijo
Que me ajuda a sossegar.
Teu coração:
O meu mundo
Para lá viver e sonhar.

Assim és tu, cheio de calor,
Feito de luz e compreensão.
Assim és tu, pleno de amor,
Aquecendo o meu coração...